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CORTAR CANA E UM TRABALHO RUIM?
A expansão dos canaviais é um fato inquestionável. Esta expansão está levando a uma ampliação momentânea dos serviços de corte manual de cana com a desconfortante queima da palha. O trabalhador rural que atua nesta atividade é visto como um coitado, sofredor, mal remunerado. O aspecto feio é provocado pela fuligem da queima da palha. Entretanto, milhares de brasileiros se deslocam de suas cidades para encontrarem na atividade uma forma de ganhar a vida e, do ponto de vista deles, vale a pena o deslocamento e o trabalho. Lógico que como qualquer um de nós eles também gostariam de ganhar mais. Muitas vezes se associa a forma de remuneração como um mal para estes trabalhadores. Recentemente, em uma assembléia de cortadores de cana realizada em Leme, a decisão deles foi a de manterem o serviço remunerado por produção. Quem produz mais ganha mais. É um principio salutar e universalmente reconhecido em praticamente todas as atividades onde o principio pode ser implantado.

O corte de cana manual é um trabalho temporário exercido em grande parte por migrantes do nordeste e do norte de Minas Gerais. Qual a razão que leva tantos brasileiros a optarem por este tipo de serviço? Na verdade a principal razão é o dinheiro. O trabalhador no corte de cana consegue obter uma renda mensal que varia em média entre R$800,00 e R$1.000,00 nos meses de safra. Em uma safra média de sete meses ele consegue se sustentar e ainda levar para casa entre R$ 3.000,00 a R$4.000,00 líquidos, ou seja, entre US$1.500,00 a US$2.000,00 por safra o que ajuda muito na manutenção da família que ficou distante este período. Além disto neste período de safra geralmente esta coberto por planos de saúde proporcionado por seus empregadores. Mas, há uma segunda razão para a preferência que é justamente a sazonabilidade do trabalho. Como este trabalhador vem, em sua maioria de outras cidades, o trabalho ser temporário é uma vantagem no entender dele, pois permite o seu retorno e convívio com a família, fator visto como primordial, pois o empregado normal só pode retornar após cumprir o período de aquisição das férias de doze meses e ficar com a família somente por menos de trinta dias, enquanto o cortador de cana fica com a família por cinco meses geralmente ajudando nos sítios e mesmo na casa. Nas últimas décadas, milhões de brasileiros obtiveram sua estabilidade econômica, adquiriram casa, bens de consumo e melhoraram o seu padrão de vida em razão da renda obtida como cortadores de cana.

Vemos como muito natural e importante o trabalho dos membros do Ministério Público do Trabalho que se preocupam com o bem estar do trabalhador que está na atividade de cortador de cana. Graças, inclusive a este trabalho, é que as condições têm melhorado ano a ano e ainda há o que melhorar.

Agora, o que merece ser esclarecido, é que a qualidade do trabalho da maioria dos cortadores de cana parece muito pior do que é realmente, especialmente se compararmos com a dos que trabalham na fabricação de carvão vegetal ou em minas de carvão mineral, nos altos fornos das usinas siderúrgicas, com os peões que trabalham com o gado e mesmo com os lixeiros. A periculosidade do corte de cana é inferior a de muitas outras atividades e a renda é bem maior do que grande parte das atividades exercidas no campo. Esta é a verdade.

Ainda devemos e podemos melhorar as condições desta classe de trabalhadores, mas como ela é exercida próxima dos centros urbanos que naturalmente são dotados de infra-estrutura tais como, luz, água, saneamento básico, hospitais etc, a condição de vida durante o período de trabalho, ou seja, durante a safra, sob alguns aspectos, é até melhor do que a existente nos seus locais de residência permanente.

É inquestionável que com a expansão da produção de cana devemos pensar em melhorar as condições de trabalho do cortador de cana, mas o maior problema reside exatamente na futura ausência deste trabalho que está com os dias contados.

Por força de lei o corte de cana manual será substituído pelo corte mecânico. O que fazer com esta legião de brasileiros que irão perder os seus empregos dentro de alguns anos? É um problema social de grande envergadura que já está posto e se apresentará no futuro, mas que devemos equacionar desde já. Precisamos de um projeto para treiná-los e reciclá-los em outras funções de sorte que este contingente de mão de obra possa ter alternativas de empregabilidade, especialmente criando estas oportunidades nos seus locais de origem o que exige uma política de governo baseada em um entrosamento dos três entes federativos. Talvez o projeto de transposição do Rio São Francisco venha a criar condições de agricultura irrigada com geração de empregos que absorvam esta mão de obra permitindo a milhões de brasileiros, hoje envolvidos no corte de cana manual, obter emprego e renda nestas potenciais novas atividades.



Antonio Sodré, advogado, produtor rural, Presidente da ASSOMOGI - Associação dos Produtores de Cana do Vale do Mogi.
 
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